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O menino e o velho por Irineu Tolentino

O velho sentou-se na calçada, ajeitando-se experientemente ao pé da parede da igreja matriz; esticou suas pernas sobre o passeio atrapalhando propositalmente os transeuntes para chamar-lhes a atenção. Os pés descalços, cabelo descuidado, indumentária rota e rosto sujo, formavam um conjunto paradoxalmente uniforme e harmônico, um retrato vivo da miséria e indiferença humana.

Avizinhava-se a hora do almoço e aquele miserável havia ganhado apenas algumas poucas moedas que mal dava para se alimentar. Esquecido - tal qual dejeto humano expelido pela ignominiosa sociedade que traiu seu insólito destino e rejeitou sua onírica ventura - ia sonhando na medida em que aguardava novos centavos.

Um menino vinha passando, e, ao olhar a triste cena, condoeu-se com o quadro de miserabilidade daquele desafortunado moribundo, tão chocante era a situação. Houve por bem sentar-se ao lado do velho indagando-lhe: "Porque o senhor está assim, em trapos?".

Surpreso com a atitude do menino, talvez mais com o fato de ter sido notado como ser humano do que por qualquer outra coisa, respondeu o moribundo calma e sabiamente, parecendo crer que a efemeridade daquele momento era pura casuística que jamais iria se repetir em sua vida, porém, isso não retirou o mérito do menino de ser presenteado com uma séria resposta: "Sou fruto do acaso do ocaso e do descaso. O acaso deu-me a sorte de moribundo, e assim vou perambulando pelas ruas da cidade vagando por entre cães que me cheiram e semelhantes que me ignoram. O ocaso é a condição de ruína em que cheguei graças a uma sucessão de causas e efeitos involuntários que ocorreram em minha vida. Quanto ao descaso, este é o defeito maior da sociedade e dos seus governantes, que deveriam atenuar as agruras dos desafortunados: é o que impossibilitou a este pobre velho reverter essa situação de moribundo, tornando-me refluxo do desenvolvimento social".

Meio sem entender o que aquele homem quis dizer com suas rebuscadas palavras - mas compreendendo-lhe perfeitamente o sentido ante o visível sofrimento - o menino levantou-se, retirou da bolsa um pacote de biscoitos e deu-o ao velho, despedindo-se em seguida.

"Garoto!" - gritou o homem. "Esse pacote de biscoitos é um alimento para o meu corpo e logo irá se acabar, mas a sua atenção e carinho alimentaram meu espírito que jamais se esquecerá de ti". Tristemente o menino respondeu: "Não me agradeça moço... amanhã o senhor sentirá fome de novo".

Irineu Tolentino
Texto inserido em:24/07/2007



Irineu Tolentino



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