|
Os três senãos da sociedade portuguesa por Luís Farinha
Há três áreas da vida portuguesa que têm levantado alguma polémica nos últimos tempos, tanto nos meios de comunicação social, como entre os partidos da oposição, como ainda (e principalmente) na opinião pública. Refiro-me concretamente aos sectores da Saúde, da Justiça e da Segurança Social. Quaisquer deles, transformados em assuntos obrigatórios em tudo o que é notícia, crónica ou debate.
Realmente, parece que em quaisquer dos casos, chegámos ao ponto de rotura, muito embora sejam pontos negros da sociedade portuguesa que se arrastam desde os velhos tempos do Estado Novo. Só que, como nos foi prometido pelos revolucionários de Abril, promessas em que acreditámos plenamente, três décadas depois continuamos na mesma e, em alguns casos, até pior do que então.
Tal como antigamente, a Saúde e a Justiça, só funcionam para quem tem dinheiro para pagar bons médicos e advogados. O povo, povo, que constitui a grossa maioria da população portuguesa, esse continua a sofrer a inclemência dum serviço público de Saúde completamente degradado e duma Justiça cuja equidade só existe em teoria. Quanto à Segurança Social, para quê dissertar sobre o que é tão evidente? Em que país da União Europeia as reformas são tão indigentes e, os aumentos concedidos, tão despudoradamente ínfimos? Em que sociedade do velho continente os idosos são tão desprezados? Quais são os países da rica família comunitária, onde o nível de vida é tão baixo? Não há dúvida que as razões são muitas para que a Saúde, a Justiça e a Segurança Social se tenham tornado os temas preferenciais dos críticos do actual sistema político vigente em Portugal. Só falta é saber se o mal é do sistema ou dos políticos que militam nas suas fileiras.
Não basta apregoar as verdades de “La Palisse”. Dizer que a democracia é melhor que a ditadura é uma redundância. O que é preciso é que o quotidiano se encarregue de nos provar que essa é uma realidade irrefutável. Indispensável é demonstrar, na prática, que o povo vive mais feliz e satisfeito num sistema democrático do que numa ditadura. Não basta que a democracia apenas garanta mais liberdade para se morrer de fome e de cuidados primários. As virtudes da democracia medem-se essencialmente pela felicidade do povo anónimo. Os ricos, esses são sempre felizes em qualquer sistema político que o país adopte.
Era assim no tempo do Estado Novo e continua a ser assim, quase 30 anos depois da implantação da democracia em Portugal.
Luís Farinha
Texto inserido em:20/08/2003
|